ANÁLISE | Zito mantém força nos redutos, mas campanha não alcança expectativa de chegar a Brasília

Ex-prefeito termina eleição com 65.830 votos e fica na suplência. Concentração de mais da metade da votação em Barreiras e São Desidério, estrutura milionária e escolhas de comunicação colocam em debate um modelo de campanha diante de um eleitor que também mudou


As urnas deste domingo (4) entregaram mais do que números. Entregaram um recado.

Zito Barbosa (União Brasil), ex-prefeito de Barreiras e de São Desidério e uma das lideranças políticas mais conhecidas do Oeste da Bahia, terminou a disputa para deputado federal com 65.830 votos e ficou na suplência. Para uma candidatura construída com o objetivo de chegar à Câmara dos Deputados, o resultado ficou abaixo da expectativa central da campanha: conquistar o mandato.

Isso não significa que Zito tenha deixado de possuir força política. Os números mostram justamente o contrário em seus principais redutos. Mas mostram também algo que merece uma análise mais profunda. A força que permaneceu em casa não ganhou dimensão estadual suficiente para levá-lo a Brasília.

A força permaneceu concentrada

Dos 65.830 votos recebidos por Zito na Bahia, 30.157 vieram de Barreiras e outros 5.701 de São Desidério, conforme os resultados oficiais da Justiça Eleitoral apresentados após a totalização.

Somados, os dois municípios deram ao candidato 35.858 votos, aproximadamente 54,5% de toda a votação obtida por ele no estado. Barreiras, sozinha, respondeu por cerca de 45,8%.

Fora desses dois municípios, diretamente ligados à sua trajetória política, Zito somou 29.972 votos no restante da Bahia.

Os números contam uma história clara. Zito conseguiu preservar uma base importante onde seu nome foi construído ao longo de décadas. O salto que a candidatura precisava dar, porém, era outro. Uma eleição para deputado federal exige atravessar fronteiras municipais, construir novas conexões e fazer um nome regional circular em um estado de dimensões políticas e territoriais muito maiores.

Foi nessa expansão que a candidatura encontrou seu limite.

Uma estrutura milionária e contas ainda em aberto

O resultado chama ainda mais atenção quando colocado diante da estrutura financeira apresentada pela campanha.

Até a atualização de 30 de setembro disponível no material consultado no DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a candidatura havia declarado R$ 2.809.169 em recursos recebidos e R$ 2.816.305,04 em despesas contratadas. Desse montante, R$ 1.853.863,04 constavam como pagos naquele momento. Markdown.md colado

É necessário fazer uma ressalva importante. Esses não são os números finais da campanha. A prestação de contas definitiva do primeiro turno ainda está dentro do prazo da Justiça Eleitoral e os valores poderão sofrer atualizações.

Mas aquilo que já foi declarado permite observar onde parte relevante da estrutura estava concentrada.

A maior categoria era militância e mobilização de rua, com R$ 820,6 mil, equivalente a 29,14% das despesas apresentadas. Também apareciam R$ 369,6 mil em cessão ou locação de veículos, R$ 327.746 em materiais impressos, R$ 300 mil em serviços prestados por terceiros e R$ 169 mil em publicidade por adesivos. Markdown.md colado

São instrumentos legítimos de uma campanha eleitoral. Os números, no entanto, ajudam a abrir uma discussão maior. Ter estrutura continua sendo fundamental, mas saber como transformá-la em conexão com o eleitor tornou-se igualmente decisivo.

A campanha mudou. O eleitor também.

Talvez esteja aqui uma das discussões mais importantes deixadas pela eleição de 2026.

Durante a disputa, era comum ouvir candidatos e integrantes de campanhas dizerem que a eleição estava “fria”, que as ruas pareciam menos empolgadas ou que determinadas mobilizações já não produziam a mesma resposta observada em eleições anteriores.

Essa percepção, sozinha, não permite concluir por que cada eleitor votou como votou. Mas a mudança na forma de comunicação política é visível.

Redes sociais, contato direto, linguagem, identidade, autenticidade e capacidade de conversar com públicos diferentes passaram a dividir espaço com instrumentos tradicionais de campanha. Caminhadas, adesivos, grandes estruturas e mobilizações continuam existindo, mas já não podem ser tratados, isoladamente, como garantia de conversão eleitoral.

Nesse cenário, modernizar uma campanha não significa apenas transportá-la para o Instagram.

Significa compreender como o eleitor de hoje quer conversar com quem pretende representá-lo.

Zito tentou mudar a imagem. Mas até onde mudou a campanha?

A comunicação de Zito já havia chamado a atenção da TV Web Barreiras antes das urnas.

Em agosto, uma análise publicada pelo portal apontou uma mudança perceptível na linguagem visual do candidato. Historicamente associado a um perfil mais sério e reservado, Zito passou a aparecer dançando, sorrindo, fazendo gestos descontraídos, utilizando óculos personalizados e participando de conteúdos direcionados especialmente à juventude.

Naquele momento, a discussão levantada pela TV Web não estava na idade do candidato nem no direito de se apresentar de maneira diferente. Estava na autenticidade e na coerência da imagem política.

Depois das urnas, a pergunta ganha outra dimensão.

A campanha de Zito efetivamente se modernizou ou incorporou uma estética nova a uma lógica eleitoral ainda muito ligada a modelos tradicionais?

Não há pesquisa que permita dizer que determinado vídeo, acessório ou estratégia de marketing tenha provocado perda de votos. A urna não fornece essa resposta e seria irresponsável inventá-la.

O que os dados permitem é analisar o conjunto.

Uma campanha pode ter redes sociais, vídeos rápidos e uma estética jovem e, ainda assim, continuar operando predominantemente dentro de uma lógica política construída em eleições anteriores. Modernidade não está apenas na aparência. Está na linguagem, no relacionamento, na velocidade da comunicação, na autenticidade e na capacidade de perceber mudanças no comportamento do eleitor.

Esse é um ponto em que a campanha de Zito deixa espaço para análise.

O contraste de uma eleição com novas linguagens

O próprio Oeste apresentou nesta eleição experiências diferentes de comunicação e construção política.

Cinthya Marabá (PL) foi eleita deputada estadual com 89.063 votos, resultado expressivo para uma candidatura que buscava chegar pela primeira vez à Assembleia Legislativa da Bahia.

Sua campanha combinou mobilização de rua, presença digital, linguagem direta e participação de lideranças políticas regionais. A comunicação buscou circular entre públicos diferentes e construir uma identidade própria para a candidatura.

A comparação precisa ser feita com cuidado. Cinthya disputou uma vaga estadual e Zito uma cadeira federal. São cargos, partidos e disputas proporcionais diferentes. Portanto, seria incorreto afirmar que um modelo elegeu Cinthya enquanto outro derrotou Zito.

O contraste serve para mostrar algo diferente. Não existe mais uma única fórmula de campanha. Comunicação, identidade e capacidade de circular por públicos distintos passaram a ocupar um espaço cada vez maior na construção política contemporânea.

A renovação que importa não é apenas estética.

A imprensa também faz parte da comunicação

Outro ponto precisa entrar nesse balanço: a relação com a imprensa.

Zito participou de entrevistas e esteve presente em diferentes meios de comunicação durante a campanha. Ao mesmo tempo, a TV Web Barreiras encontrou dificuldades, em diferentes momentos, para estabelecer uma interlocução direta e frequente com o candidato.

Esse registro não permite afirmar que a postura tenha retirado votos. Não há dado que sustente essa relação direta.

Mas existe uma questão de comunicação.

Quem pretende ampliar uma liderança regional para uma disputa estadual também precisa ampliar os caminhos pelos quais conversa com a sociedade. Rádio, televisão, portais, sites, entrevistas, redes sociais e o contraditório jornalístico não são necessariamente concorrentes. São caminhos diferentes para públicos diferentes.

Em uma campanha cujo grande desafio era justamente sair dos redutos tradicionais, ampliar esses espaços também significava aumentar as oportunidades de apresentar o candidato, suas propostas e seu projeto político.

O ruído político com Otoniel

Na reta da campanha, Zito também protagonizou um episódio delicado dentro do próprio grupo político.

Em entrevista à Rádio Band, fez críticas à administração do prefeito Otoniel Teixeira, seu sucessor em Barreiras. Zito questionou a condução da relação do Executivo com a Câmara e afirmou, em sua avaliação, que Otoniel não possuía naquele momento uma aprovação “muito boa”.

O episódio chamou atenção porque Otoniel chegou à Prefeitura dentro do projeto político apoiado por Zito.

Não existe dado que permita afirmar que as declarações tenham custado votos ao candidato. Politicamente, porém, produziram uma situação particular. Zito precisava mobilizar uma base construída pelo mesmo grupo que levou Otoniel ao poder enquanto procurava estabelecer distância da administração do sucessor.

Na mesma entrevista, Zito colocou publicamente uma régua alta para o próprio desempenho ao dizer que esperava alcançar “a maior votação que um deputado já obteve na cidade de Barreiras”.

Terminou com 30.157 votos no município.

O resultado não apaga Zito. Mas muda a régua.

Uma análise séria não precisa transformar uma derrota eleitoral no fim de uma carreira política.

Zito recebeu 65.830 votos. Em Barreiras, foram mais de 30 mil. Continua existindo uma base eleitoral concreta, e a condição de suplente também faz parte do resultado produzido pela eleição.

Mas seria igualmente equivocado olhar apenas para esses números e ignorar o objetivo da candidatura.

Zito entrou na eleição para conquistar uma cadeira de deputado federal. Não conseguiu.

É justamente a distância entre a estrutura construída, a força acumulada ao longo de sua trajetória e o resultado final que torna essa eleição politicamente importante.

Mais da metade dos votos ficou concentrada em Barreiras e São Desidério. A candidatura chegou aos últimos dias antes da eleição com mais de R$ 2,8 milhões em despesas contratadas declaradas, valor ainda sujeito ao fechamento da prestação de contas. A comunicação tentou apresentar um Zito mais jovem e descontraído. A campanha investiu pesadamente em mobilização de rua. Ainda assim, a expansão estadual necessária não aconteceu.

Nenhum desses fatores, isoladamente, explica os 65.830 votos.

Juntos, porém, colocam uma pergunta diante do resultado: quanto da política que funcionou ontem ainda consegue conversar com o eleitor de hoje?

A eleição de 2026 não apagou a história política de Zito Barbosa. Também não eliminou sua força em Barreiras e São Desidério.

Mas mostrou que história, estrutura e força em redutos tradicionais, por si sós, já não garantem a reprodução de resultados de outras eleições.

A política mudou. A campanha mudou. O eleitor também.

Talvez o principal recado das urnas esteja justamente aí: renovar uma candidatura não é apenas mudar sua aparência. É perceber a mudança do eleitor antes que seja a própria urna a revelá-la.

Tiago Portela

DRT 0889 | Jornalista Responsável

Filiação: Sinjorba | Fenaj

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