Plenário esvazia antes do fim, sessão cai por falta de quórum e presidente cobra vereadores em Barreiras

Parlamentares deixaram a Câmara enquanto os trabalhos ainda estavam em andamento; com remuneração bruta mensal de aproximadamente R$ 17,6 mil, vereadores tiveram a permanência em plenário cobrada pelo próprio presidente da Casa


BARREIRAS — A sessão da Câmara Municipal de Barreiras terminou antes da conclusão dos trabalhos após a saída de vereadores reduzir o número de parlamentares em plenário e provocar falta de quórum. O esvaziamento ocorreu quando ainda havia vereador utilizando a tribuna e levou o próprio presidente da Casa, Yure Ramon, a interromper a sessão e cobrar dos colegas respeito a quem ainda fazia uso da palavra.

A cena expôs uma questão que vai além de uma exigência regimental. Se a tribuna é espaço para o vereador falar, apresentar posições e participar do debate político, o funcionamento do Legislativo também depende de parlamentares presentes para ouvir, debater e permitir que a sessão prossiga.

Foi justamente essa cobrança que partiu da Presidência da Câmara.

Naquele momento, o vereador Allan do Allanbick fazia seu pronunciamento. Yure interrompeu a fala, pediu desculpas ao colega e explicou publicamente a razão do encerramento.

Eu falei que nessa Casa os colegas vereadores tinham que estar aqui respeitando a fala do colega. Por falta de quórum, declaro encerrada a presente sessão”, afirmou o presidente.

A declaração é relevante porque não partiu de um parlamentar criticando adversários, mas de quem conduzia oficialmente os trabalhos. Ao anunciar a falta de quórum, Yure vinculou a permanência dos vereadores no plenário ao respeito à fala dos próprios colegas.

O direito de falar e o dever de ouvir

Allan acabou se tornando o exemplo concreto da consequência do esvaziamento.

Antes dele, outros vereadores haviam utilizado o espaço destinado aos pronunciamentos. Quando chegou sua vez de falar e de ser ouvido pelos colegas, porém, já não havia parlamentares suficientes em plenário para manter a sessão.

Allan discutia justamente a importância do contraponto dentro da Câmara. Ao mencionar uma conversa com o vereador Rider Castro, afirmou que divergências políticas não deveriam ser levadas para o campo pessoal e elogiou o colega por, segundo sua avaliação, tratar determinados assuntos a partir de informações que considera verdadeiras.

Em seguida, entrou no debate sobre as obras do novo aeroporto de Barreiras. Reconheceu atraso no cronograma e começou a explicar sua avaliação sobre as razões para a demora. Não conseguiu terminar.

A falta de quórum encerrou a sessão no meio de sua manifestação.

O episódio evidencia uma contradição do próprio ambiente legislativo: não basta reivindicar o direito de ser ouvido quando se ocupa a tribuna. O debate parlamentar também pressupõe disposição para permanecer e ouvir quando a palavra está com o outro.

Vereadores recebem aproximadamente R$ 17,6 mil brutos por mês

A discussão sobre presença ganha ainda uma dimensão objetiva quando considerada a remuneração do cargo.

Levantamento feito pela TV Web Barreiras com base em dados da Câmara Municipal referentes à folha normal de julho de 2026, disponibilizados em sistema público de transparência, mostra proventos brutos mensais de aproximadamente R$ 17,6 mil para o cargo de vereador. O documento identifica os parlamentares como agentes políticos e registra o mesmo valor bruto para os vereadores relacionados na folha.

Os valores líquidos, por outro lado, variam porque existem descontos individuais. Por essa razão, a TV Web considera nesta reportagem o provento bruto registrado oficialmente, e não quanto efetivamente foi depositado após os abatimentos. O próprio relatório demonstra diferenças significativas entre bruto, descontos e líquido.

Em outras páginas da mesma folha, o padrão de aproximadamente R$ 17,6 mil em proventos aparece novamente entre os ocupantes do cargo de vereador.

A informação sobre remuneração não estabelece, por si só, que determinado parlamentar tenha descumprido alguma obrigação legal ou regimental. Ela acrescenta, contudo, um elemento legítimo de interesse público à discussão sobre presença, participação e funcionamento da Câmara.

Quem exerce mandato eletivo é remunerado com recursos públicos. Por isso, a sociedade tem o direito de acompanhar não somente votações, projetos e discursos, mas também a participação de seus representantes durante as atividades legislativas.

Sessão terminou, mas o debate permanece

A TV Web Barreiras não atribui nesta reportagem a saída antecipada individualmente a cada um dos vereadores nem afirma que todos tenham deixado a sessão. Allan estava na tribuna e Yure Ramon conduzia os trabalhos no momento do encerramento. O fato registrado na própria sessão é que o número de parlamentares presentes caiu abaixo do necessário para sua continuidade.

Também não se presume, sem apuração individual, a razão pela qual cada vereador deixou o plenário.

Isso, porém, não altera a consequência pública do episódio: uma sessão da Câmara de Barreiras terminou por falta de quórum enquanto os trabalhos ainda estavam em andamento e havia parlamentar discursando.

Em uma Casa cuja essência é justamente o confronto democrático de ideias, o esvaziamento antes do encerramento também impõe uma pergunta que interessa diretamente ao eleitor: qual é o espaço para o debate se o vereador que fala não encontra, do outro lado, vereadores suficientes para permanecer ouvindo?

A cobrança mais contundente daquela sessão acabou vindo de dentro da própria Câmara.

Antes de bater o martelo e encerrar os trabalhos, o presidente Yure Ramon deixou registrado que os vereadores deveriam permanecer na Casa respeitando a fala do colega.

E, naquele dia, a falta desse número mínimo de parlamentares não foi apenas simbólica.

Ela encerrou a sessão.

Tiago Portela
DRT 0889 | Jornalista Responsável
Filiação: Sinjorba | Fenaj

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