Em entrevista à Jovem Pan, ex-prefeito afirma que mudança de finalidade do espaço não partiu de decisão pessoal; documentos mostram atuação do Ministério Público sobre a área anos antes e processo que culminou na criação do Parque Natural
Uma discussão que há anos atravessa a política de Barreiras voltou ao centro do debate nesta terça-feira (8). Questionado durante entrevista à Jovem Pan sobre o antigo Parque de Exposições Engenheiro Geraldo Rocha, o ex-prefeito e candidato a deputado federal Zito Barbosa contestou a versão de que teria decidido, por iniciativa própria, acabar com o espaço destinado à tradicional exposição agropecuária do município.
A resposta ganha relevância porque o fechamento do antigo parque para sua finalidade original tornou-se, ao longo dos últimos anos, argumento recorrente no debate político local.
Segundo Zito, quando assumiu a Prefeitura de Barreiras, em 2017, o município já carregava obrigações decorrentes de acordos ambientais firmados anteriormente e relacionadas à área.
“Não foi interesse do Zito, não foi uma decisão do Zito. Foi uma decisão do Ministério Público que eu tive que obedecer”, afirmou durante a entrevista.
A TV Web Barreiras pesquisou documentos e registros públicos sobre o caso. E o histórico encontrado mostra que a questão envolvendo a área do antigo Parque de Exposições é anterior à chegada de Zito Barbosa à Prefeitura.
Documentos mostram que problema antecede gestão Zito
Um registro oficial do Ministério Público Federal, publicado anos antes da administração de Zito, menciona expressamente a existência de um Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta incidente sobre a área do Parque de Exposições de Barreiras.
O documento registra ainda procedimento judicial e inquérito civil relacionados ao caso e demonstra que a discussão ambiental e jurídica sobre aquela área já estava instalada pelo menos em 2011.
Há também registro da Prefeitura de Barreiras, divulgado em 2026, segundo o qual as obrigações tiveram origem em um TAC firmado pelo município em 2007 e reafirmado em 2010, relacionado ao passivo ambiental provocado pelo antigo aterro sanitário e pela destinação inadequada de resíduos. Por se tratar, nesse ponto, de informação divulgada pelo próprio município, a TV Web Barreiras a apresenta com a devida atribuição.
Isso é relevante porque impede reduzir um processo jurídico e ambiental de vários anos à afirmação de que um único prefeito simplesmente decidiu extinguir o Parque de Exposições.
Novo TAC durante a gestão Zito definiu transformação da área
Já durante a administração de Zito, em julho de 2020, foi celebrado outro Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta entre o Município e o Ministério Público da Bahia.
Foi nesse processo que avançou formalmente a transformação da área em Parque Natural Municipal Engenheiro Geraldo Rocha. Após consulta pública, o Decreto Municipal nº 264, de 13 de novembro de 2020, estabeleceu a criação da unidade de conservação.
O estudo técnico elaborado para implantação do parque identificou aproximadamente 44 hectares, divididos entre a área do antigo Parque de Exposições e o Parque Humaitá, às margens do Rio Grande.
O objetivo passou a ser conciliar preservação ambiental com atividades de lazer, esporte, educação ambiental, pesquisa e turismo ecológico.
Portanto, há sustentação documental para a afirmação central de Zito de que a mudança de finalidade não surgiu simplesmente de uma decisão política pessoal de acabar com a exposição agropecuária.
Isso não significa, entretanto, que todas as declarações feitas pelo ex-prefeito durante a entrevista estejam automaticamente comprovadas pelos documentos consultados.
Zito fala em multa milionária e investimento com recursos próprios
Na entrevista, Zito afirmou que o descumprimento das obrigações poderia levar o município a uma multa que, segundo ele, chegaria à época a aproximadamente R$ 22 milhões.
Também declarou que sua administração investiu em torno de R$ 16 milhões na transformação do espaço.
“Como é que eu faria um outro espaço se nós teríamos que investir com recurso próprio essa mudança do Parque de Exposições para um parque para atender a nossa população?”, questionou.
A TV Web Barreiras não localizou, até esta publicação, documento oficial que permita confirmar especificamente o valor de R$ 22 milhões citado pelo ex-prefeito.
Quanto ao investimento, registros divulgados durante a execução das obras apontavam aproximadamente R$ 15 milhões em recursos próprios do município, valor próximo, mas não idêntico aos R$ 16 milhões mencionados por Zito.
A distinção é necessária: uma coisa é a existência documentada do TAC e da obrigação de transformação da área; outra são os valores específicos mencionados na entrevista.
Exposição já teve peso importante para a economia regional
A memória da antiga exposição agropecuária também possui sustentação documental.
Em 2007, a Secretaria da Agricultura da Bahia registrava a exposição de Barreiras como o segundo maior evento de feiras agropecuárias do estado, atrás apenas de Salvador. Naquele ano, a expectativa era receber cerca de 300 mil visitantes e 2,5 mil animais.
Em 2010, a própria Seagri estimava que a 28ª edição movimentaria mais de R$ 20 milhões em negócios, com quatro leilões e público superior a 100 mil pessoas.
Por isso, o desaparecimento daquele formato deixou uma lacuna sentida por produtores e entidades ligadas à pecuária, independentemente da origem jurídica e ambiental da transformação do antigo espaço.
A própria Acrioeste passou a defender posteriormente a criação de um novo parque regional multiuso capaz de reunir pecuária, agricultura, comércio, serviços, tecnologia, feiras e exposições.
Novo Parque de Exposições volta ao horizonte de Barreiras
Durante a entrevista desta terça, Zito foi além da explicação sobre o passado e apresentou uma proposta para o futuro.
Caso seja eleito deputado federal, afirmou que pretende destinar recursos por meio de emenda parlamentar para ajudar Barreiras a construir um novo Parque de Exposições Multiuso.
A proposta não surge apenas no discurso eleitoral do candidato.
Em julho de 2025, a Secretaria da Agricultura da Bahia (Seagri) confirmou oficialmente que Governo do Estado, Prefeitura de Barreiras e representantes da Acrioeste iniciaram articulações para viabilizar um novo Parque de Exposições Multiuso no município.
Na ocasião, o secretário estadual Pablo Barrozo afirmou que o governador Jerônimo Rodrigues havia sinalizado apoio ao projeto. A concepção discutida prevê não apenas exposições agropecuárias, mas também negócios, pesquisa, tecnologia, serviços, cultura e lazer.
Ou seja, a discussão atual já não se limita ao destino do antigo Geraldo Rocha. Existe uma articulação institucional para que Barreiras volte a ter uma estrutura específica voltada ao setor agropecuário e a grandes eventos.
Zito afirmou que pretende participar desse processo caso chegue à Câmara dos Deputados.
“Eu pretendo colocar uma emenda específica para a construção de um parque multiuso [...] para que nós possamos ter nos próximos anos um parque à altura de Barreiras”, declarou.
O que os documentos permitem afirmar
A entrevista de Zito recoloca em perspectiva uma controvérsia que ganhou forte componente político em Barreiras.
Os documentos consultados pela TV Web Barreiras permitem afirmar que a situação jurídica e ambiental envolvendo a área do antigo Parque de Exposições antecede a gestão Zito Barbosa e que a transformação do local em unidade de conservação ocorreu dentro de um processo envolvendo TAC, Ministério Público, estudos ambientais, consulta pública e atos administrativos.
Isso torna imprecisa uma narrativa que atribua exclusivamente a Zito, sem esse contexto, a origem de todo o processo.
Ao mesmo tempo, há uma segunda parte da história que também precisa permanecer registrada: durante a gestão Zito foi celebrado o TAC de 2020 e executada a transformação física do antigo espaço. E o cumprimento das obrigações desse acordo passou posteriormente a ser objeto de questionamentos e acompanhamento do Ministério Público.
Essa separação entre o que começou antes, o que foi decidido juridicamente e o que foi executado durante cada administração é essencial para que o debate sobre o Parque de Exposições seja feito com documentos, e não apenas com versões políticas.
ATUALIZAÇÃO: Após a publicação desta reportagem, a TV Web Barreiras recebeu novos documentos referentes ao processo nº 0506213-88.2017.8.05.0022. A análise integral dos autos mostra que os TACs de 2007 e 2012 são anteriores à gestão Zito e tratavam do passivo de resíduos sólidos, mas que o acordo que incorporou a área do antigo Parque de Exposições à criação do Parque Municipal foi firmado em 2020, durante sua administração. O veículo prepara nova reportagem documental sobre o caso.
Tiago Portela
DRT 0889 | Jornalista Responsável
Filiação: Sinjorba | Fenaj
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