Autor da arte da bandeira do município e conhecido como “o pintor dos cajus”, artista plástico, músico, compositor, escultor e poeta deixa um legado profundamente ligado ao Rio Grande, ao Cerrado, à cultura ribeirinha e à memória de Barreiras
Barreiras perdeu um dos artistas que melhor souberam olhar para a cidade e transformá-la em arte.
Morreu, aos 63 anos, o artista plástico Randesmar Vieira da Silva, barreirense que fez das águas do Rio Grande, dos cajueiros, dos buritizais, das lavadeiras, dos pescadores, dos areeiros, das cachoeiras e dos personagens do cotidiano de sua terra matéria-prima para uma trajetória dedicada à cultura, à memória e à identidade do município.
A notícia de sua morte provocou manifestações de pesar nesta segunda-feira (31) e representa uma perda para a cultura de Barreiras. Mais do que pintor, Randesmar foi músico, compositor, escultor, poeta e ativista cultural. Em diferentes linguagens, construiu uma obra que carregava quase sempre a mesma origem: a terra onde nasceu e o Rio Grande às margens do qual cresceu.
Era conhecido também como “o pintor dos cajus”. Em suas telas, o fruto e o cajueiro ganharam formas, cores e significados que acabaram se tornando uma espécie de assinatura de sua produção artística.
Mas talvez uma das maiores dimensões de seu legado esteja no fato de que sua arte não ficou restrita às telas.
Randesmar também é o autor da arte da bandeira de Barreiras, um dos principais símbolos oficiais do município. Nela estão representadas referências à Bahia e elementos profundamente associados à história e à economia barreirense, como o campo, o Rio Grande, a agricultura e o pescador.
Assim, mesmo depois de sua partida, uma criação de Randesmar continuará presente na representação oficial da cidade que tantas vezes serviu de inspiração para sua obra.
Um artista nascido às margens do Rio Grande
Randesmar nasceu em 30 de março de 1963, em Barreiras, filho de Thomaz Alves da Silva e Normezina Vieira da Silva.
Sua relação com a arte começou cedo. Ainda criança demonstrava habilidade para o desenho e para a música. Com o passar dos anos, desenvolveu diferentes técnicas e construiu uma linguagem artística fortemente relacionada ao território onde nasceu.
O Rio Grande não era apenas uma paisagem para Randesmar.
Era memória, personagem e inspiração.
Ribeirinhos, pescadores, areeiros e lavadeiras passaram por suas telas. Também estavam presentes o Cerrado, os buritizais, as cachoeiras do Acaba Vida e do Redondo e as cores características dos Gerais.
Em 2023, ao falar sobre a exposição “Tintas dos Gerais na Bacia do Rio Grande”, o próprio artista recordou que havia nascido na beira do rio e que sempre relacionou seus trabalhos ao cotidiano dos ribeirinhos e areeiros.
Sua preocupação ambiental também ganhou forma através da arte. Randesmar retratou, por exemplo, a figura mitológica do Nego D’Água, associada por ele à proteção das nascentes e dos rios, e desenvolveu trabalhos que chamavam atenção para a preservação das águas e para a relação do homem com a natureza.
Das bacias abandonadas à obra de arte
Entre os trabalhos que ajudam a compreender a originalidade de Randesmar está a série ligada às bacias encontradas às margens dos rios.
No projeto “Saga das Bacias”, o artista utilizou antigas bacias de alumínio associadas ao cotidiano das lavadeiras e encontradas nos leitos e margens dos rios, transformando esses objetos em expressão artística e ambiental.
A proposta reunia pintura, escultura, memória ribeirinha e uma mensagem de preservação das nascentes.
Registros de sua trajetória mostram que Randesmar levou esse trabalho para diferentes espaços e utilizou a arte também como instrumento de conscientização sobre a degradação ambiental.
Era uma característica que atravessava boa parte de sua produção: pintar Barreiras não apenas pela beleza da paisagem, mas também pela necessidade de preservá-la.
Uma trajetória que ultrapassou Barreiras
Embora profundamente ligado à sua cidade natal, o trabalho de Randesmar ultrapassou as fronteiras do município.
Em 2010, ele foi um dos artistas barreirenses convidados a integrar, no Palácio das Artes, o Museu Itinerante Rabobank, projeto cultural que reuniu reproduções de trabalhos de alguns dos grandes nomes da história da arte nacional e internacional.
Na exposição estavam referências como Cândido Portinari, Tarsila do Amaral, Vincent van Gogh, Claude Monet e Paul Cézanne. A produção artística local foi representada por Randesmar Vieira e Ataliba Campos.
Na ocasião, Randesmar apresentou trabalho relacionado à “Saga das Bacias”, reafirmando sua ligação artística com os rios do Oeste baiano.
Em 2014, novamente participou de uma edição do Museu Itinerante em Barreiras, na exposição “Arte/Água”, realizada no Mercado Cultural Caparrosa, ao lado do artista Rondinelle Barbosa de Oliveira.
Ao longo de sua trajetória, também recebeu reconhecimentos locais e teve trabalhos apresentados fora do município.
Cem telas para contar uma vida
Um dos momentos mais simbólicos dos últimos anos ocorreu em 2023.
A exposição “Tintas dos Gerais na Bacia do Rio Grande”, realizada na Biblioteca Municipal Folk Rocha, reuniu 100 pinturas em acrílico sobre tela de Randesmar.
A mostra apresentou diferentes períodos de sua produção e praticamente transformou o espaço em um passeio pela própria Barreiras vista pelos olhos do artista.
Ali estavam o Rio Grande, os buritizais, as cachoeiras, o povo ribeirinho e outros elementos que acompanharam décadas de produção.
Era, de certa maneira, Randesmar contando a história de sua terra através das próprias cores.
Reconhecimento até os últimos dias de vida
A trajetória de Randesmar continuou sendo reconhecida até muito recentemente.
Ele foi selecionado pelo Prêmio Nilda Spencer, Ano II, da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB Bahia), representando Barreiras e o território de identidade Bacia do Rio Grande.
E há uma circunstância especialmente emocionante em sua despedida.
No último dia 21 de agosto, apenas dez dias antes das manifestações por sua morte, Randesmar foi homenageado pelo curso de História da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB) durante a colação de grau do Centro das Humanidades.
Ao lamentar sua partida nesta segunda-feira, a própria Universidade o descreveu como artista plástico, compositor, músico e ativista cultural e recordou o homem conhecido carinhosamente como “o pintor dos cajus”.
Foi uma homenagem ainda em vida a quem ajudou a registrar, pela arte, a história da cidade.
Uma parte de Barreiras permanece em suas telas
Randesmar deixa a esposa, Francisca de Fátima Rego Araújo, os filhos Thomaz Alves da Silva Neto, Nathie Araújo da Silva e Randes Bispo da Silva, além de familiares, amigos, admiradores e uma comunidade cultural que perde uma de suas referências.
A Prefeitura de Barreiras e outras instituições manifestaram pesar pela morte do artista.
Mas talvez seja impossível medir seu legado apenas pelo número de quadros que pintou, pelas exposições das quais participou ou pelos reconhecimentos que recebeu.
Porque Randesmar pintou aquilo que muitos barreirenses aprenderam a reconhecer como parte de casa.
Pintou o rio.
Pintou os cajus.
Pintou os buritis.
Pintou as águas.
Pintou os homens e mulheres que vivem às margens delas.
Pintou uma Barreiras que existe na paisagem, mas também na memória.
E deixou sua criação até mesmo no símbolo que tremula representando oficialmente o município.
A morte encerra a trajetória do homem, mas não apaga aquilo que o artista colocou no mundo.
Randesmar Vieira deixa Barreiras aos 63 anos, mas as cores com que contou a história de sua terra permanecem.
A TV Web Barreiras manifesta profundo pesar pela morte do artista e se solidariza com sua esposa, filhos, familiares, amigos e com toda a comunidade cultural neste momento de despedida.
À família de Randesmar, nossos sentimentos.
À cultura barreirense, fica o legado.
E a Randesmar, fica o reconhecimento por ter dedicado parte de sua vida a transformar Barreiras em arte.









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