Banner fala em “drama econômico”, mas dados mostram Barreiras com 19,4 mil empresas e comércio como maior empregador

Publicação compartilhada pela vereadora Carmélia da Mata retrata pouco movimento, poucas compras e lojas à espera de clientes; números da Receita Federal e do Ministério do Trabalho mostram crescimento do emprego formal, expansão de estabelecimentos e mais de 4,4 mil empresas ativas somente no varejo

Uma publicação compartilhada nas redes sociais pela vereadora Carmélia da Mata colocou o comércio de Barreiras no centro do debate político ao apresentar um cenário de forte retração econômica no município.

Com a manchete Barreiras: o comércio em silêncio, o material fala em “pouco movimento”, “poucas compras”, “pouca circulação” e “lojas esperando clientes”. A peça chega a classificar a situação como um drama econômico e questiona “para onde foi o dinheiro que antes movimentava a cidade”.

Mas o que acontece quando essa percepção é confrontada com os indicadores econômicos disponíveis?

A TV Web Barreiras levantou dados de emprego e atividade empresarial provenientes de bases como a Receita Federal do Brasil e a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho, além dos indicadores populacionais e econômicos do IBGE.

Os números revelam um cenário significativamente diferente da ideia de uma economia comercial em processo generalizado de esvaziamento.

Barreiras chegou a 45 mil empregos formais

Em 2025, Barreiras contabilizou 45.139 trabalhadores formalmente empregados.

Mais importante do que o número absoluto é sua evolução: houve crescimento de 9,1% no número de empregados em relação ao ano anterior.

O município também chegou a 10.123 estabelecimentos cadastrados, indicador que apresentou expansão de 8,46% em relação ao período anterior.

Os dados são da RAIS e estão consolidados no Observatório Setorial Territorial do Sebrae.

Portanto, os indicadores mais recentes consolidados do mercado formal não apontam desaparecimento de postos de trabalho ou retração generalizada da estrutura empresarial.

Apontam crescimento.

Comércio varejista é o maior empregador de Barreiras

Quando a análise deixa o conjunto da economia e entra especificamente no comércio, outro dado chama atenção.

O comércio varejista foi a atividade econômica que mais empregou trabalhadores em Barreiras em 2025.

Foram 7.006 empregos formais.

O varejo aparece à frente, inclusive, da Administração Pública, Defesa e Seguridade Social, com 6.890 vínculos, e das atividades de agricultura, pecuária e serviços relacionados, com 5.247.

Entre as ocupações mais numerosas de Barreiras estavam 1.930 vendedores do comércio varejista e 748 operadores de caixa.

Considerando os grupos ocupacionais, vendedores e demonstradores somavam 3.150 trabalhadores.

São números relevantes para dimensionar o peso que o comércio continua exercendo sobre a geração de renda e emprego no município.

Mais de 4,4 mil empresas atuam somente no varejo

A dimensão empresarial também ajuda a compreender a economia barreirense.

Dados da Receita Federal consolidados pelo Observatório apontam 19.481 empresas ativas em Barreiras em maio de 2026.

Dentro desse universo, nenhuma divisão econômica reunia mais empresas do que o comércio varejista.

Eram 4.452 estabelecimentos ativos somente nessa atividade.

Depois apareciam alimentação, com 1.371 estabelecimentos, e serviços especializados para construção, com 1.098.

O número de novos negócios também merece atenção.

Somente entre as empresas abertas em 2025 que permaneciam ativas na base consultada, aparecem 1.840 microempreendedores individuais, 793 microempresas e 93 empresas de pequeno porte, além de outras formas empresariais.

Esses indicadores não significam que uma empresa individualmente não possa fechar, que determinado segmento não enfrente dificuldades ou que comerciantes não experimentem períodos de redução nas vendas.

Significam, entretanto, que a fotografia econômica do município exige mais elementos do que a percepção de movimento em determinadas ruas ou horários.

Uma cidade de 171 mil habitantes e PIB per capita próximo de R$ 60 mil

Barreiras também ampliou seu tamanho populacional e econômico nas últimas décadas.

O IBGE estima uma população de 171.634 habitantes em 2025, contra 159.734 moradores registrados no Censo de 2022.

O PIB per capita municipal chegou a R$ 59.470,74 em 2023, último resultado consolidado atualmente disponibilizado pelo instituto para esse indicador.

Esses números não funcionam como medidor mensal das vendas do comércio, mas ajudam a estabelecer a dimensão econômica e demográfica do município.

E essa distinção é fundamental.

Rua vazia não é indicador econômico

O banner compartilhado pela vereadora utiliza uma representação de estabelecimentos fechados e uma rua praticamente vazia para ilustrar a situação.

O próprio texto afirma que caminhar pelo Centro “em determinados horários” produziria a sensação de um comércio parado.

Mas movimento de pedestres observado em determinado local e horário, isoladamente, não permite medir faturamento, estoque de empresas, geração de empregos ou desempenho global da economia municipal.

Mudanças nos hábitos de consumo, expansão de novos corredores comerciais, vendas pela internet, horários de funcionamento e deslocamento de consumidores entre diferentes regiões da cidade são alguns dos fatores que impedem que o movimento de uma rua seja utilizado isoladamente como termômetro da economia inteira.

É exatamente por isso que análises econômicas utilizam séries estatísticas.

Isso significa que não existem dificuldades? Não

Os números também não autorizam a conclusão oposta.

Dizer que os indicadores não mostram um comércio em colapso não significa afirmar que todos os comerciantes estejam vendendo mais ou que todos os segmentos estejam aquecidos.

Empresas podem fechar enquanto outras abrem. Determinados segmentos podem perder movimento enquanto outros crescem. Empregos podem ser criados em uma atividade e eliminados em outra.

Além disso, indicadores estruturais como a RAIS não medem quanto cada lojista vendeu nesta semana ou neste mês.

Portanto, seria igualmente incorreto transformar os números positivos em uma afirmação de que não existem dificuldades no comércio.

A diferença está justamente aí.

Uma coisa é discutir desaceleração, dificuldades de segmentos específicos ou redução pontual do consumo.

Outra é construir a imagem de uma economia municipal generalizadamente paralisada.

Demanda por trabalhadores também permanece no radar

A movimentação do mercado de trabalho no Oeste também tem provocado iniciativas públicas voltadas ao preenchimento de vagas.

Em abril deste ano, o Governo da Bahia incluiu Barreiras e Luís Eduardo Magalhães entre os municípios participantes do Dia T, mobilização estadual organizada pela Secretaria do Trabalho, Emprego, Renda e Esporte e pelo SineBahia para intermediação de mão de obra.

A ação estadual disponibilizou mais de 3,3 mil oportunidades no conjunto das cidades participantes.

Esse número é estadual e, portanto, não pode ser atribuído exclusivamente a Barreiras. Ainda assim, a inclusão do município em ações de recrutamento reforça a existência de demanda por trabalhadores na região.

A TV Web não localizou, até o fechamento desta reportagem, base oficial suficiente para afirmar como dado estatístico que Barreiras possua atualmente “mais vagas do que trabalhadores”. Por isso, essa afirmação não é adotada pela reportagem.

O que os números permitem concluir

Os indicadores consultados não medem exatamente a mesma coisa e possuem períodos de referência diferentes. Por isso, não devem ser somados nem utilizados fora de contexto.

Mas, observados em conjunto, apresentam elementos objetivos:

Barreiras tinha 45.139 empregos formais em 2025, crescimento de 9,1%; registrava 10.123 estabelecimentos cadastrados, expansão de 8,46%; chegou a maio de 2026 com 19.481 empresas ativas; e o comércio varejista, com 7.006 trabalhadores e 4.452 empresas ativas, permanece como uma das estruturas centrais da economia municipal.

Isso não impede a existência de lojas com dificuldades.

Não impede queda de faturamento em determinados negócios.

Não significa que todo comerciante esteja satisfeito.

Mas os dados disponíveis não sustentam, por si, um diagnóstico de colapso generalizado do comércio de Barreiras.

Debate político exige números

Carmélia da Mata exerce mandato de vereadora e possui legitimidade para questionar políticas públicas, cobrar o Executivo e levar ao debate preocupações que chegam ao Legislativo.

Da mesma maneira, comerciantes têm legitimidade para reclamar de movimento, vendas, impostos, infraestrutura ou qualquer dificuldade enfrentada diariamente.

O problema surge quando uma percepção localizada passa a ser interpretada como retrato de toda a economia sem que indicadores acompanhem essa conclusão.

Em uma cidade com mais de 171 mil habitantes e quase 19,5 mil empresas ativas, uma discussão sobre o desempenho do comércio exige números.

E os números atualmente disponíveis contam uma história mais complexa do que a imagem de uma cidade economicamente silenciosa.

A economia de Barreiras enfrenta desafios, como qualquer grande centro regional. Há empresas que abrem e empresas que fecham, segmentos que avançam e outros que enfrentam dificuldades.

Mas entre uma preocupação legítima e a afirmação de um “drama econômico” existe uma distância que precisa ser preenchida por dados.

É justamente nessa distância que o jornalismo precisa atuar.

Tiago Portela
DRT 0889 | Jornalista Responsável
Filiação: Sinjorba | Fenaj
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