A manifestação prevista para esta quarta-feira, 15 de janeiro, contra o aumento da tarifa do transporte coletivo em Barreiras, surge como resposta imediata a um decreto que autorizou o reajuste das passagens. O fato é concreto, recente e legítimo. O direito de protestar é constitucional. O episódio, porém, abre uma discussão que vai além do valor cobrado na catraca.
Barreiras não é uma metrópole. Ainda assim, o custo do transporte coletivo se aproxima do praticado em grandes centros, enquanto a qualidade do serviço permanece distante desse padrão. Ônibus antigos, manutenção questionada, longos intervalos entre viagens e a ausência de estrutura básica em pontos de parada compõem um cenário conhecido de quem depende diariamente do sistema. O reajuste apenas reacende uma insatisfação que nunca deixou de existir.
Esse descompasso tem raízes antigas. Os contratos que regem o transporte coletivo foram firmados em 2014, em um contexto político e urbano completamente diferente do atual. Desde então, a cidade cresceu, as demandas aumentaram e o modelo permaneceu praticamente o mesmo. A conta, como costuma acontecer, continuou recaindo sobre o usuário.
É nesse ambiente que as manifestações ganham força. Historicamente, protestos populares no Brasil avançam quando mantêm foco claro e autonomia social. O problema começa quando o movimento deixa de ser da população e passa a servir de vitrine para projetos pessoais. A experiência mostra que, quando o palanque se instala no meio da multidão, a pauta se dilui, a narrativa se fragmenta e o resultado costuma ser o enfraquecimento da própria causa.
O calendário político torna essa vigilância ainda mais necessária. Ano pré-eleitoral costuma transformar problemas reais em oportunidades retóricas. Discursos inflamados aparecem onde antes havia silêncio. Personagens que ignoraram reajustes anteriores passam a disputar espaço nas manifestações. Não se trata de situação ou oposição. Trata-se de coerência. Quem hoje ergue o tom precisa explicar por que ontem se calou.
Há também um risco adicional. Em tempos de redes sociais aceleradas, informações falsas e versões distorcidas circulam com facilidade. Protestos legítimos podem ser contaminados por narrativas construídas mais para engajamento político do que para resolver o problema concreto do transporte público. Quando isso acontece, o debate se afasta da solução e se aproxima do espetáculo.
O enfrentamento do problema exige outro caminho. Cabe ao Executivo, como gestor do contrato, avaliar juridicamente alternativas, inclusive a possibilidade de revisão profunda ou de uma nova licitação, se os instrumentos legais permitirem. Cabe ao Legislativo exercer sua função fiscalizadora, cobrando transparência, metas e qualidade. E cabe à população manter o protagonismo, sem terceirizar sua voz.
A história recente ensina que direitos avançam quando a pressão vem das ruas, mas permanece nas ruas. Quando o protesto vira palco, o povo deixa de ser ouvido e passa a ser figurante. A tarifa pode até subir hoje. A pergunta que fica é quem vai conduzir o debate amanhã.
Esta é uma coluna de análise política, com opiniões e interpretações de caráter analítico, distinta das matérias jornalísticas produzidas pelo Portal TV Web Barreiras.


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